Confesso que faço uso das palavras. Mas não sou meio artista, nem meio intelectual. Entretanto, encontro na junção das sílabas a minha fuga.
Faço o convite para que analise as minhas introspecções em um lugar que chamei de Picadeiro Urbano.

domingo, 24 de abril de 2011

Aquele que Deus não criou



O vídeo do Grupo Virtucomete não me chamou atenção pelo figurino, maquiagem, iluminação, seja lá o que participa da criação de um curta. Ao assisti-lo uma questão se mostrou dúbia a mim: a personagem disse ser fruto da realidade, da vida e, portanto, não podia ser produto de Deus uma vez que aos que Nele acredita, a entidade nada mais é do que o símbolo de uma perfeição e amor. Logo, quem molda essa realidade mencionada no curta-metragem a ponto de o homossexualismo apresentar-se oculto, mas quem o vive enxerga perfeitamente?
Inconstância para conquistar seus bens já que eles se submetem a situações de risco, mas o mesmo não se diz sobre a análise interior. A personagem reconhece o que é, transforma-se e é penalizada pelos mesmos que a faz mirabolantes propostas. Quem molda essa realidade vivida são as mesmas instituições que lutam por exercício de seus direitos- a família, escolas, órgãos governamentais e mídia-.
O texto de Luiz Mott trás as seguintes informações: O Brasil, conhecido internacionalmente como "exportador" de travestis para a França e Itália, é um país extremamente contraditório no que se refere aos homossexuais: em seu lado cor de rosa temos, por exemplo, a consagração da transexual Roberta Close, capa das principais revistas nacionais, eleita “modelo de beleza da mulher brasileira”; do lado sombrio, há provas de que neste mesmo Brasil, a cada três dias, um homossexual é barbaramente assassinado, vítima da homofobia.
Nosso país - que ostenta a fama internacional de ser uma das partes do mundo onde os gays e lésbicas são mais visíveis e socialmente aceitos - esconde uma desconcertante realidade: é o campeão mundial em assassinatos de homossexuais. A revista Veja, datada em 04/04/2011 publica a seguinte notícia: O montante de assassinatos de homossexuais, travestis e lésbicas no Brasil aumentou 31,3% em 2010 em relação ao ano anterior. [...] Foram 260 casos em 2010 contra 198 em 2009, segundo a associação GGB (Grupo Gay da Bahia). Segundo Mott, [...] "O risco de um homossexual ser assassinado no Brasil é 785% maior que nos Estados Unidos." [...].
No mínimo paradoxal. Em tempos de cultura compartilhada, vias abertas para o conhecimento como sendo instrumento de ação transformadora e dentre o discurso aplica-se o clichê ideal de liberdade e igualdade, percebe-se que a ideologia e a sua prática encontra-se vazia, perdida dentre o ser que Deus criou. 



Informações: 
http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/luizmott/luizmott1.html
Sobre o vídeo- Curta metragem .. Aquele que Deus não criou. Sinopse: A personagem, uma travesti, conta seus dramas, suas culpas, sua história de glamour e tragédia. Produção strategy in action - Direção, Argumento e Roteiro: Christiano Gomez - Actuação: Erberti Sória - Direção de fotografia: Felipe Aristimuño - Assistente de Produção: Júlio César Nogueira

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A morte na rotina

          
          Eram dois homens. A fisionomia de um era pacata. Naquele homem não se esperava nada, nem a mais simples emoção. Sua genialidade encontrava-se truncada sabe-se lá onde. A este, melancolia era só o que lhe restava. O segundo não tinha aparência agradável: uma barba por fazer, cabelos mal penteados, roupa desconcertada e sapatos gastos. 
        Esperavam sentados  algo que os atracava à rotina. Nada novo, nem mesmo comportamentos a se observar. Esses homens por acaso utilidade tinham? No banco os instantes tornam-se iguais. Perderam a cor e a essência. Os sentidos não os obedecem- tato não encontra prazer, visão já não capta luz, paladar não se dá com o gosto das flores... Dos amores.
         Que diferença faz a morte vivida da morrida? Um outro me disse alguma coisa sobre o sofrimento. A questão agora é: onde o sofrimento se aconchega? 
                   Só quero uma coisa- VIDA

Picadeiro

Respeitável público!
Eis que vos apresento o circo
o ciclo
Eis que mostro o espetáculo
a estratégia
E eu vejo a plateia

Respeitável público!
Eis que vejo faces risonhas
que vivem por barganha
E não assumem a verdadeira face
e de marionete a vida ganha

Respeitável público!
Não quero a métrica
nem a arte pela arte

Quero o público no picadeiro
experimentando a consciência do real
escondida pelas cortinas

E se em luto for preciso a cultura
os questionamentos, a arte estar
convido-TE ao (des)aconchego do meu picadeiro